sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ATUALIDADES | Investimento em Economia Verde é opção para retomada do crescimento chinês.



“Imagine se a China conseguisse produzir painéis solares como um dia produziu DVD players. Imagine o impacto que isso teria no mundo”, disse Lo Sze Ping, diretor-geral da Greenovation Hub, pouco antes de sua participação na Conferência Rio+20 no ano passado. Ping é um dos líderes da coalizão, de iniciativa não-governamental, China Going Green, que une empresários chineses que faturam alto produzindo de maneira eficiente e renovável.

Com o fim da indústria barata decretado pelo aumento dos salários e a consequente saída de indústrias do país, a China busca reduzir seu papel de maior poluidor do mundo para tornar-se o berço da produção limpa. 

Em julho de 2012, Pequim anunciou em seu Plano Quinquenal (o bloco de projetos que norteará o desenvolvimento do país de 2011 a 2015) o investimento de 816 bilhões de yuans (R$ 268 bi) em medidas contra a poluição do ar e da água, além de outros 932 bilhões de yuans (R$ 306 bi) que serão destinados a iniciativas para a construção civil e produção de automóveis que usem menos recursos não-renováveis.

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Em quatro anos, Tianjin passou por rápida metamorfose

Nos Estados Unidos, o mercado de empregos já comemora o aporte chinês, ainda que não tenha recebido um centavo de Pequim. A fabricante de carros elétricos BYD anunciou a construção de uma planta própria neste ano para a produção de ônibus elétricos. A Bulgária será também destino da BYD em 2013.

O renascimento da China industrial é apoiado pela sociedade local. Um estudo publicado em 5 de dezembro pelo grupo DuPont, um dos gigantes da indústria química mundial, mostrou que 70% dos entrevistados prefeririam usar produtos verdes, ainda que somente quatro entre dez pessoas saibam identificar tais produtos. Especialistas acreditam que negócios como compras online serão um dos grandes beneficiados pela preocupação global com o meio ambiente, uma vez que o “carbon footprint” (medida para calcular as emissões de carbono em uma cadeia industrial ou de serviços) é reduzido.

O programa de desenvolvimento mandarim, iniciado pela reforma econômica e a abertura do país a mercados internacionais, foi sempre baseado no “poluir antes para depois recuperar”, o que deu origem ao quintal mercantil chinês que alimentou a cadeia industrial mundial.

Especialistas estimam que o boom econômico chinês custe anualmente ao país entre 3,5% e 8% do Produto Interno Bruto (PIB) e 400 mil vidas em degradação do meio ambiente. Um estudo realizado pelo Banco Mundial em 2007 em 341 cidades, intitulado “Custos da Poluição na China”, revelou que o avanço tecnológico atingido pelo país foi relativamente positivo para o meio ambiente. A China é hoje três vezes mais eficiente no uso de energia em comparação ao início do processo de reforma. Os níveis de poluição, entretanto, seguem uma crescente: o consumo de energia subiu 70% entre 2000 e 2005, e o uso de carvão aumentou 75% no mesmo período.

Mas é também da China a preocupação mundial com o aquecimento global. E o governo do Partido Comunista já busca, desde o primeiro mandato do antigo presidente Hu Jintao, no início dos anos 2000, uma mudança em seu crescimento, orientando-se para uma tecnologia limpa em vez do crescimento do PIB nominal. Um dos exemplos é a indústria de painéis solares. Cerca de 60% da produção mundial ocorre no país asiático, que agora sofre com as tarifas entre 30% e 250% impostas pelos EUA sobre seus produtos.

Empresas chinesas estão conseguindo alcançar sucesso comercial com produtos e soluções mais ecológicas, como sistemas de tratamento de água desenvolvidos para evitar a poluição do solo e rios e fabricação de aparelhos de ar-condicionado movidos a gás natural ou calor industrial.

Ecocidades no centro da nova dinâmica verde da China

Uma das apostas de Pequim para essa nova fase de desenvolvimento sustentável é o avanço da construção de ecocidades – áreas urbanas desenvolvidas para serem 100% (ou perto disso) sustentáveis. A ecocidade de Tianjin, a maior entre os cerca de 20 municípios chineses que representam tal conceito, ocupa um território equivalente à metade de Manhattan e é planejada para ser completamente renovável, abrigar 350 mil pessoas e ser o cartão postal da China Verde.

Não serão os belos parques e a cobertura florestal, no entanto, que farão da ecocidade a maior representante mundial em projetos de urbanização sustentáveis. A ecocidade fica na suja área portuária Tanggu, à beira do quinto maior porto do mundo e a 150 quilômetros da capital Pequim. O cartaz que estampará a ecocidade de Tianjin é tecnológico e visa a servir de exemplo às demais economias emergentes.

A ideia, resultado de uma cooperação entre os governos da China e de Cingapura, é identificar soluções para o processo de urbanização de países em desenvolvimento que possam incorporar o uso de energia verde, transporte que não crie emissão de gases causadores do efeito estufa e um sistema de coleta e reciclagem de lixo em áreas já ecologicamente comprometidas.

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Cartaz anunciando a ecocidade de Tianjin, na China

Conforme Ho Tong Yen, CEO da ecocidade de Tianjin, o principal objetivo é poder mostrar como é possível recuperar áreas poluídas e fazer delas lugares verdes e habitáveis. Diferentemente de iniciativas europeias e norte-americanas, a construção de ecocidades na China se baseia na recuperação de uma área já degradada.

Ainda que a construção da ecocidade de Tianjin tenha sido financiada por Cingapura, que investiu R$ 645 milhões no projeto (a China deu o mesmo valor em terras), a sua ocupação e sobrevivência financeira deverá vir do setor privado, através de investimento direto em exploração imobiliária, por exemplo. A ecocidade terá ainda cinco parques industriais (de produção limpa), uma meta de 90% do transporte não-poluente (com bicicletas ou a pé) e 60% do lixo reciclado já neste ano, quando estima-se que 10 mil pessoas já estejam morando no local.