quarta-feira, 22 de agosto de 2012

ATUALIDADES | Rússia entra na OMC e encerra capítulo 'econômico' da Guerra Fria



Após 18 anos de negociações, a Rússia, a única grande economia do G-20 ainda fora da Organização Mundial do Comércio (OMC), formalizou sua entrada na entidade, num movimento que, para analistas, além de simbólico, encerra de vez o "capítulo econômico" da Guerra Fria.

Vladimir Putin firmou entrada da Rússia na OMC após 18 anos.

Segundo especialistas, a entrada do país no organismo multilateral marca a vitória do livre comércio, uma vez que a Rússia, hoje a nona maior economia do mundo, com um PIB de quase US$ 2 trilhões (R$ 4 trilhões), até então se mantinha imune às pressões internacionais para se juntar aos outros 155 estados-membros.


"Depois de protestos como o 'Occupy Wall Street', e tantas críticas lançadas contra a OMC, a entrada da Rússia mostra a importância da organização e seus princípios", afirmou David Collins, especialista em Direito Econômico Internacional pela Universidade de Londres.

Segundo um levantamento do Banco Mundial, a Rússia pode ganhar entre US$ 53 bilhões (R$ 106 bilhões) e US$ 177 bilhões (R$ 354 bilhões) por ano devido à sua plena integração no comércio mundial.

Desde sua fundação, em 1995, a OMC passou de 123 estados-membros para 156. Apenas três dezenas de países e territórios (como Aruba ou Somália) não integram a organização.
Mudanças

A adição de um novo membro à OMC requer uma adaptação das suas regras internas para a organização e, em particular, um desmantelamento das medidas tarifárias (impostos especiais de importação) para proteger sua economia.

No caso da Rússia, as tarifas sobre 700 tipos de produtos agrícolas e manufaturados serão eliminados ou drasticamente reduzidos: a taxa média cairá de 10% para 7,4%.

Os serviços serão desregulamentados, incluindo um setor-chave para o investimento estrangeiro, como o das telecomunicações.

No caso do sistema bancário, haverá algumas limitações. O número de instituições financeiras estrangeiras não poderá exceder 50% do total do setor, mas, pela primeira vez, serão autorizados a operar no país 100% dos bancos estrangeiros.


"Essas mudanças vão permitir que a Rússia se livre de um modelo antigo e economicamente ineficiente para um outro baseado no comércio e de investimento, deixando de lado o sistema de substituição de importações e de industrialização subsidiada", disse à BBC Natalia Suseeva, analista da Reinassance Capital, um banco de investimento especializado em mercados emergentes.

De acordo com os especialistas, os principais beneficiados da entrada da Rússia na OMC serão os consumidores, que, a partir de agora, poderão ter acesso a produtos hoje inalcançáveis para a grande classe média.



Para analistas, entrada da Rússia na OMC encerra 'capítulo econômico' da Guerra Fria.

Já o investimento estrangeiro direto (IED), prioridade do governo do presidente Vladimir Putin, deverá dar um salto.

Isso porque, segundo analistas, a aceitação das regras da OMC irá fornecer um quadro jurídico para o investimento e contribuir para o progresso em um setor que ainda carece de qualidade institucional.
Impacto

Os principais "beneficiados" desse processo, entretanto, não parecem muito convencidos.

De acordo com uma pesquisa da Fundação de Opinião Pública, apenas 21% dos russos são a favor da medida.
Para o senador Sergei Lisovsky, a Rússia não está pronta para competir contra outras economias do mundo.

"Com a entrada na OMC, a Rússia vai entrar numa guerra para a qual não está preparada", afirmou Lisovsky.

A indústria manufatureira e automobilística, além do setor agrícola, estão entre os mais vulneráveis.

Os opositores da incorporação, liderados pelos comunistas, destacam a passagem traumática do sistema comunista para a privatização ultraliberal do ex-presidente Boris Yeltsin (1931-2007), no início dos anos 1990.

Entre 1990 e 1999, o PIB da Rússia caiu 54%, a produção industrial, 60%, e milhões de pessoas perderam tudo da noite para o dia em meio à hiperinflação da economia.


Durante governo de Boris Yeltsin (1991-1999), Rússia viveu onda de ultraliberalismo econômico


Temor

A incorporação negociada pelo governo de Putin estabeleceu um período de ajuste de cumprimento às novas regras.

Um número considerável de redução de tarifas deve ser implementado ao longo dos próximos sete anos.

O sistema de subsídios agrícolas, que soma hoje o equivalente a US$ 9 bilhões (R$ 18 bilhões), terá um prazo até 2018 para atingir o valor acordado como subvenção: US$ 4,4 bilhões (R$ 8,8 bilhões).

A China é um caso de integração bem sucedida na OMC. O país asiático formalizou sua entrada na organização em 2002 e sua incorporação serviu para consolidar sua presença hegemônica no comércio internacional.

"Tudo depende de como os empresários russos vão se adaptar ao novo cenário. Será preciso uma mudança das práticas tanto no âmbito dos negócios quanto das instituições para que o país possa competir internacionalmente. Não há dúvidas sobre as vantagens caso eles façam corretamente seu dever de casa", acrescentou Suseeva à BBC.

O temor é de que, caso isso não seja feito, e as promessas de grandes lucros não sejam atendidas, a Rússia volte a enfrentar uma tempestade social e política.