terça-feira, 28 de agosto de 2012

ATUALIDADES | Esquerdas árabes se dividem diante da crise na Síria



Ao contrário das revoltas egípcia e tunisiana, a insurreição síria de março de 2011 não foi unanimidade no seio das esquerdas árabes. Entre a empatia pelas reivindicações democráticas dos manifestantes e o temor de ingerências políticas e militares exteriores, as divisões se aprofundam.

Em agosto de 2011, o jornal libanês de esquerda nacionalista Al-Akhbaratravessou a primeira crise desde sua criação em 2006. Seu redator chefe adjunto, Khaled Saghieh, deixou o jornal que ele ajudou a fundar. A causa: a cobertura da crise síria; Saghieh denunciou a falta de apoio do jornal ao levante popular que eclodiu em março de 2011. Al-Akhbar jamais negou sua proximidade política com o Hezbollah libanês, um dos principais aliados regionais de Bashar al-Assad, e jamais omitiu sua aprovação ao diálogo entre a equipe no poder de Damasco e uma parte da oposição, em vez de apoiar a simples queda do regime. Ao mesmo tempo, o jornal deu voz a alguns opositores sírios, entre os quais Salamah Kaileh, um intelectual marxista sírio-palestino detido no fim de abril de 2012 pelos serviços de segurança.


Em junho, os desacordos apareceram na versão inglesa do jornal (on-line), logo depois da publicação de um artigo de Amal Saad Ghorayeb.3Em apoio explícito a Damasco, o periódico libanês atacou os partidários da “terceira via” – aqueles que denunciam o regime autoritário sírio e alertam para uma eventual intervenção estrangeira, militar e ocidental nos moldes da Líbia. Em consequência, no mesmo mês, outro colaborador da edição inglesa do jornal, Max Blumenthal, anunciou sua demissão em um artigo criticando os “apologistas de Assad” dentro da redação.

Mosaico em decomposição

A crise de Al-Akhbar é sintomática dos debates que dividem as esquerdas no mundo árabe, tanto estratégica como ideologicamente. Alguns setores continuam a apoiar o regime sírio, em nome da luta contra Israel e a “resistência ao imperialismo”. Outros se posicionam firme ao lado da insurreição, em nome de uma lógica “revolucionária” e da defesa dos “direitos democráticos”. Há também os que defendem um meio-termo: entre a solidariedade ao pedido de liberdade dos manifestantes e a rejeição das “ingerências estrangeiras”, reivindicam uma forma de “reconciliação nacional”. Sejam de origem comunista ou marxista, radicais ou moderadas, ou ainda flutuantes na órbita de certa esquerda nacionalista, as esquerdas árabes ganham contornos de mosaico em decomposição no que se refere ao caso sírio.

O apoio puro e simples ao clã Assad certamente não é muito difundido, e raras são as vozes que reivindicam a manutenção do regime de Estado. Contudo, os partidários incondicionais da revolta popular não parecem majoritários. Situados na extrema esquerda do espectro político, muitas vezes são de filiação trotskista (Fórum Socialista no Líbano, Socialistas Revolucionários no Egito) ou maoista,como a Via Democrática no Marrocos. Esses movimentos se relacionam com parte da oposição ao regime, como a Esquerda Revolucionária na Síria, de Gayath Naisse. Desde o fim de 2011, participaram de mobilizações pontuais diante das embaixadas e consulados sírios em seus respectivos países. Alguns intelectuais de esquerda independentes apoiam igualmente a lógica insurrecional, como é o caso do historiador libanês Fawwaz Traboulsi. A reivindicação primeira dos mais radicais é a queda do regime, posição que exclui qualquer diálogo. Por mais que defenda a necessidade de um protesto popular pacífico, não nega aos rebelados o direito de recorrer às armas. Na extrema esquerda, os partidários da revolução se reúnem no âmbito do Conselho Nacional Sírio (CNS), uma das principais coalizões de oposição cuja aliança com o Catar, a Turquia e a Arábia Saudita é denunciada como comprometedora da independência do movimento popular sírio.

Outros setores de esquerda denunciam o regime e reivindicam sua queda, porém, permanecem prudentes em relação ao apoio aos revolucionários acordado entre as monarquias do Golfo, da mesma forma que não ousam aderir completamente ao discurso anti-Assad que emana da comunidade internacional liderada pelos Estados Unidos. 

Contudo, esse reflexo anti-imperialista não substitui o apoio à insurreição: a prioridade é a situação interna da Síria, e a lógica do levante popular contra seu regime está acima de tudo, da mesma forma que o processo precedente na Tunísia ou no Egito.

Por outro lado, a maioria das forças situadas à esquerda no espectro político do mundo árabe mantém uma distância prudente em relação à revolta síria. Em primeiro lugar, denunciam a militarização da insurreição, que beneficia unicamente os grupos islâmicos radicais e os combatentes estrangeiros abundantes na Síria. Em segundo, condenam o caráter confessional do conflito, que oporia progressivamente as minorias alauitas cristãs à maioria sunita radicalizada pela repressão, e temem uma guerra civil interminável. E, por fim, também se inquietam pelas relações de forças regionais e mundiais. Irã e Síria contra monarquias do Golfo; Rússia e China contra Estados Unidos: no grande jogo regional e internacional que faz da Síria a linha de frente de vários atores internacionais, a opção é sempre pela esquerda, a favor dos primeiros contra os segundos.

Assim, no dia 4 de abril de 2012, a União dos Partidos Nacionalistas de Esquerda jordanianos – coalizão que reúne seis formações políticas, de comunistas a nacionalistas árabes – organizou um encontro em Amã para lembrar o nono aniversário da invasão norte-americana no Iraque. O tema central, contudo, não foi a lembrança da queda de Saddam Hussein, e sim a crise síria: a “intervenção estrangeira” no país foi firmemente denunciada, e alguns oradores a relacionaram com a operação militar de abril de 2003 contra o Iraque e o apoio das principais potências ocidentais ao CNS e à oposição armada.

Na Tunísia, em um comunicado de 17 de maio de 2012, a poderosa central sindical União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT) – cuja direção tem parte de seus integrantes na extrema esquerda – reiterou seu apoio às reivindicações democráticas do povo sírio e alertou para um complô fomentado pelos Estados “colonizadores e árabes reacionários”. Dois meses antes, o Partido Comunista dos Trabalhadores (POCT) tunisiano defendia, ao lado das formações nacionalistas árabes, uma manifestação para denunciar a postura, em Túnis, da conferência dos “Amigos da Síria”, que reuniu quase sessenta delegações internacionais ao redor do CNS.

O Partido Comunista Libanês (PCL), por sua vez, se caracteriza por um posicionamento particularmente prudente: às vezes, em seus veículos de imprensa, publica artigos de opositores sírios, como Michel Kilo (que não pertence ao CNS), e se abstém de participar das manifestações que vêm sendo realizadas há um ano diante da embaixada síria em Beirute. 

O PCL se encontra sob o fogo cruzado da extrema esquerda libanesa, enquanto parte de seus dirigentes permanece próxima do Partido da Vontade Popular Síria, de Qadri Jamil. Membro da oposição “legal”, este último fez parte do novo governo de Riyad Hijab, nomeado por Assad em junho de 2012 como vice-primeiro-ministro de assuntos econômicos.

Reformista e gradual

O foco de apoio das esquerdas árabes está, na realidade, na lógica reformista e gradual que preconiza uma solução política – e não militar – ao conflito. O comunicado final da Conferência Nacionalista Árabe – que reuniu em junho passado, em Hammamet, Tunísia, cerca de duzentos congressistas membros de formações árabes nacionalistas de esquerda e, em menor medida, islâmicas – reflete essa posição. O documento tentou ser o mais consensual possível. Ao mesmo tempo que reconhece o direito do povo sírio à “liberdade, à democracia e à alternância pacífica do poder”, condena “qualquer violência”, nivelando o regime e a oposição armada e apelando para que o conflito se concentre na lógica do “diálogo” baseado no plano de retorno à paz proposto em março de 2012 pelo emissário da ONU, Kofi Annan.

Se para uma parte da esquerda radical árabe a perspectiva revolucionária deve ser o assunto na ordem do dia na Síria, outro setor, substancialmente mais importante, faz seu luto e não defende a queda brutal do regime. Para esse setor, o centro da contradição está em uma guerra fria não explícita. O medo do vazio e de uma Síria pós-Assad reconciliada com os Estados Unidos e aliada com os Estados do Golfo é mais forte que o medo de um regime de duração prolongada.

Ademais, a Síria permanece uma espécie de Jano – o deus romano de duas faces, uma olhando para a frente e outra para trás – aos olhos dos militantes árabes de esquerda. Raros são aqueles que negam o caráter autoritário e repressivo do regime; mas, ainda hoje, o discurso que o defende, combinado às sanções internacionais das quais ele é objeto, ecoa em um dos pilares ideológicos mais profundos das esquerdas árabes: o paradigma terceiro-mundista e anti-imperialista. Para alguns, esse sentimento é amenizado pelo caráter popular da revolta; para outros, é agudizado pela internacionalização crescente do conflito.

Além disso, a dinâmica islâmica nascida com a Primavera Árabe – traduzida pela chegada da Irmandade Muçulmana às portas do poder no Marrocos, na Tunísia e no Egito – sem dúvida provocou um movimento pendular em parte das esquerdas: as revoltas árabes são atualmente temidas porque poderiam desembocar em uma hegemonia islâmica. O movimento Ennahda na Tunísia, como a Irmandade Muçulmana no Egito e na Jordânia, figura como um apoiador fervoroso da oposição síria. O posicionamento de grande parte das esquerdas árabes no caso sírio reflete, assim, sua própria confrontação com as forças do Islã político. 

Por temor a um futuro próximo desencantado, os partidos que reivindicam a “revolução” e o “progressismo” – e, em alguns casos, o marxismo – expressam a preferência paradoxal por uma solução negociada e gradual de transição na Síria.