quinta-feira, 12 de abril de 2012

ATUALIDADES | Entenda o problema na Síria

A HISTÓRIA


Retrato do ex-ditador sírio Hafez Assad, pai de Bashar

A Síria é um país com histórico de revoltas e repressão. Há mais de quatro décadas, o pai de Bashar Assad, Hafez, tomou o poder, mas enfrentou obstáculos para impor sua autoridade na forma de protestos populares. As manifestações sempre foram reprimidas violentamente, enquanto a população recebia propostas de mudanças que nunca se concretizaram.

Um exemplo é o caso da cidade de Hama, um dos focos dos protestos contra Assad. Em 1982, Hafez ordenou que suas tropas bloqueassem uma rebelião de sunitas fundamentalistas, matando cerca de 20.000 pessoas. Desta vez, os manifestantes foram influenciados pela Primavera Árabe, no Norte da África e Oriente Médio, que levou à queda de dois ditadores na região: o tunisiano Zine El Abidine Ben Ali, em 14 de janeiro, e o egípcio Hosni Mubarak, em 11 de fevereiro.


QUEM SÃO OS MANIFESTANTES


Manifestante sunita participa de protesto contra o regime de Assad

Seria ingênuo dizer que os opositores de Assad são apenas jovens idealistas conectados às redes sociais em busca de democracia. A emboscada que culminou com a morte de 120 policiais sírios na cidade de Jisr al Shughour, em junho, é interpretado por alguns especialistas como uma ação de jihadistas, por exemplo. Apesar de ainda não estar claro o motivo ou o autor da chacina, o governo alega que foram "gangues armadas" que conspiram contra Assad, enquanto ativistas defendem que os soldados foram mortos pelos próprios colegas porque se recusaram a atacar civis.

A maioria (74%) dos sírios é sunita (ramificação islâmica moderada), sendo que apenas 10% da população é alauíta (religião de Assad e dos políticos mais poderosos do país), o que revolta o primeiro grupo. Boa parte dos protestos acontecem em cidades pequenas e rurais, dominadas por sunitas, e não em centros urbanos onde há mistura de crenças e etnias, o que demonstra que o viés da maioria dos manifestantes é religiosa. Assim como as revoltas no Egito e na Tunísia, os protestos da Síria não têm a figura de um líder, apenas de ativistas proeminentes que dão força ao movimento.


COMO SÃO ORGANIZADOS OS PROTESTOS


Reprodução da página da organização 'The Syrian Revolutio'n no Facebook

Os levantes começaram e são organizados pela internet, convocando manifestantes por meio do Facebook, através da página Syrian Revolution 2011. Agora, os maiores protestos acontecem às sextas-feiras, após as tradicionais orações do meio-dia, quando milhares de muçulmanos já estão reunidos para orar e saem diretamente das mesquitas às ruas de todo o país.


PRESSÕES INTERNAS


Assad atendeu apenas algumas das exigências dos manifestantes

Os protestos iniciaram com o pedido de reformas políticas a favor de liberdade e democracia. Contudo, a violenta repressão das forças de segurança levou a população a questionar diretamente o governo e exigir a saída de Bashar Assad. Algumas reivindicações da população foram atendidas, como a revogação da lei de emergência que vigorava no país há 48 anos e a libertação de presos políticos e civis detidos em protestos (o ditador ofereceu uma anistia em maior, mas não libertou todos).Quanto à transição a um governo democrático e pluralista, Assad disfarçou - apenas permitiu a outros partidos além do seu (Baath) a participação nas eleições e prometeu diálogo para revisar as leis eleitorais, além de reforma constitucional. Outras exigências, contudo, foram ignoradas: o fim das torturas e matanças de manifestantes, liberdade de imprensa, a independência do sistema judiciário e a compensação para exílios políticos e desaparecimentos de presos.


PRESSÕES EXTERNAS


O presidente americano já pediu abertamente a saída de Assad 

A condenação à repressão aos protestos é geral, com exceção de Irã, Iraque e Venezuela. Os Estados Unidos foram o primeiro país a criticar os atos de violência, em abril, e Obama já pediu abertamente a saída de Bashar Assad. A União Européia seguiu a posição americana e aumentou o pacote de sanções contra as autoridades sírias para acelerar a queda do ditador.Outros países, como os BRICs - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul - acreditam nas promessas de Assad para promover reformas no país e acreditam que este processo será lento. Os integrantes do Ibas (Brasil, Índia e África do Sul) pediram moderaçãoe respeito aos direitos humanos ao ditador, que chegou a admitir que as forças de segurança cometeram "alguns erros". Outros países, como Turquia, Jordânia, Arábia Saudita, Kuwait e Barein também pressionaram as autoridades sírias pelo fim da repressão violenta às manifestações.


POSIÇÃO DO BRASIL


Antonio Patriota, ministro brasileiro de Relações Exteriores

Quando grande parte do Ocidente começou a pressionar o regime de Assad com intensidade, o Brasil foi obrigado a tomar uma posição – e, em um primeiro momento, virou o melhor amigo da Síria. Depois de mostrar-se contra uma condenação ao ditador, o governo brasileiro mudou o discurso - mas continuou em cima do muro, como é de costume - e apresentou uma resolução alternativa para condenar o regime sírio durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, no começo de agosto.O texto, apresentado com a Grã-Bretanha, ressalta "a condenação da violência, a necessidade de que os crimes sejam investigados e de que exista um acesso para as equipes humanitárias da ONU". Contudo, o Brasil já se posicionou contra a aplicação de sanções à Síria. E essa hesitação serviu apenas para Damasco usar como propaganda em benefício próprio. Quando o  Ibas visitou o governo sírio no início de agosto, o encontro foi utilizado pela Síria para mostrar que o regime não está isolado e que os emergentes apostam nas propostas de Assad.


POR QUE OS DADOS SOBRE A SÍRIA SÃO TÃO IMPRECISOS?



Imagem feita de um celular mostra os corpos de manifestantes mortos em confronto com a polícia, em Douma, na Síria

Dependendo da agência de notícias, o número de mortes na repressão a protestos varia, bem como as cidades onde acontecem as manifestações. Isso acontece porque está proibida a entrada de jornalistas estrangeiros na Síria, o que impossibilita a checagem de dados.A única forma de se obter informação no momento é através de ativistas de Direitos Humanos que estão no país e passam os dados à imprensa e à ONU. Quando eles não testemunham os massacres, repassam o que moradores e fontes médicas contaram a eles. Segundo essas fontes, pelo menos 2.200 pessoas morreram desde o início dos protestos contra o governo, em meados de março.


COMO SÃO OS POSSÍVEIS DESFECHOS?



Assad em reunião com o deputado conservador americano Brooks Newmark

O fim do conflito ainda parece distante, mas já é possível fazer algumas previsões. Existe a possibilidade de Assad se manter no poder, pois o regime pode mobilizar o apoio de minorias e das classes mais abastadas da população. Na melhor das hipóteses, o ditador pode implementar mudanças significativas no país que correspondam às expectativas (ao menos de longe) dos opositores. Mas isso é praticamente utopia.O futuro da Síria sem Assad, contudo, não apresenta perspectivas muito alentadoras. Se o regime cair, o país pode mergulhar em caos e instabilidade - talvez até em uma guerra civil. No pior dos casos, pode ser revelado que, por trás dos protestos por democracia, mascaram-se grupos radicais que estabeleceriam um regime islâmico. Analistas também apontam para a possibilidade de sucessão de um governo de caráter sunita influenciado pela Turquia.



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Diplomacia brasileira demonstra apoio a texto de censura da ONU contra Síria



Infográfico - Os ditadores que estão no olho do furacão das revoltas árabes